Em meados dos anos 90 na Argentina se tornou moda contratar jogadores africanos, algo que para o futebol daquele tempo parecia estranho. É verdade que muitos jogadores do continente já se destacabam nas principais ligas da Europa, mas ainda assim o público argentino não contemplava a ideia de que um jogador vindo da África pudesse se destacar em uma liga tão competitiva. Quem ajudou a disseminar a ideia – e a tornou tendência – foi um empresário de nome Marcelo Houseman que, se fazendo passar por um primo do grande René Houseman (campeão do mundo em 78 pela Albiceleste), enviava vídeos de jogadores do continente primordial a todos os clubes da primeira divisão. Quis a sorte que um desses compilados caísse na mão de nada mais e nada menos que Diego Armando Maradona que, impressionado pelo que havia visto, recomendou ao presidente do Newells Old Boys, Eduardo López, a contratação de um dos craques do escritório de Houseman com vistas ao Torneo Clausura 1994. O nome em questão era Ernest Mtawali, um meio-campista proveniente do Maláui que desde 1986 jogava no futebol sul-africano, com passagens pleo Bloemfontein Celtic e depois pelo Mamelodi Sundowns.

Mtawali, que também era o cara da sua seleção, rapidamente despertou uma febre em Rosário graças àqueles torcedores que não o haviam visto jogar nem sequer um minuto, mas confiavam no aval outorgado pelo grande astro do futebol mundial. Depois da sua chegada, o jogador se transformou no mais buscado na hora das entrevistas e o díario La Capital de Rosario lhe dedicou uma ampla entrevista onde o recém-chegado prometia sacrifícia e se mostrava tranquilo em relação as pressões que deveria enfrentar. Para completar o quadro perfeito, Mtawali recebeu a camisa 10, uma honra reservada apenas para poucos. Rapidamente as expectativas positivas deram lugar a uma dura realidade.

Na primeira rodada diante do Talleres de Córdoba, o treinador do Newell’s Jorge Castelli escalou Mtawali no time titular e o encarregou da tarefa de ser o cérebro do time. Quem esteve naquela tarde no Parque de la Independencia conta que o africano não fez absolutamente nada e simplesmente se dedicou a devolver a bola a seus companheiros cada vez que lhe davam um passe. Não ia para cima, não driblava, não chutava. Nada. Previsivelmente, o encontro com os cordobeses terminou num enfadonho empate de 1-1 e nas crônicas jornalísticas o meia do Maláui foi descrito como o ponto fraco do time leproso: “O africano Mtawali, supostamente o encarregado de gerar jogo ofensivo, fracassou na sua missão e além disso pisou muito pouco na área rival. Então, tudo ficou limitado a aproveitar um descuido do rival. Assim é muito difícil jogar”.

Castelli, talvez convencido de que os nervos da estreia haviam afetado a Ernest, decidiu dar uma segunda chance ao meia já na rodada seguinte, nada mais nada menos que de visitante contra o Boca Juniors, mas outra vez sua atuação foi discreta e o Profe decidiu substituí-lo no começo do segundo tempo. Os xeneizes venceram por 2-0.

A essas alturas, tanto os torcedores do Newell’s como a imprensa de Rosário já sabiam que Ernest, infelizmente, não era nem de perto o jogador que haviam dito que era, mesmo assim Castelli seguiu insistindo em colocar o meio-campista como titular. Na rodada 3, La Lepra recebeu o Vélez Sarsfield, o time sensação do futebol argentino naqueles anos. Como era de se esperar, os comandados por Carlos Bianchi deram um vareio de bola no anfitrião e venceram por 3 a 0, com grande atuação de Turu Flores (campeão da Libertadores em 94 contra o São Paulo). Curiosamente, nesse jogo Mtawali foi bem e por isso o treinador decidiu mantê-lo entre os titulares por mais um jogo.

Uns dias mais tarde, enfrentando o Lanús, Ernest teve a sua despedida do futebol argentina com um rendimento bem aquém do esperado (o diário Clarín lhe conferiu nota 3), tanto que o técnico da Lepra o substituiu logo no começo do segundo tempo. Mesmo tendo essa a sua última atuação com a camisa do Newell’s, Mtawali prorrogou sua estadia na Argentina. O jogador ainda treinaria por alguns meses no Talleres de Córdoba, mas não jogou nenhuma partida.

Sua carreira não terminaria na terra de Gabriela Sabatini. De maneira inexplicável, se levarmos em consideração o seu mau desempenho na Argentina, Mtawali conseguiu um contrato de duas temporadas no Toulouse da França, tendo depois passado pelo Al-Wehda da Arábia Saudita até que, no ano 2000, retornou a África do Sul para jogar no Orlando Pirates e posteriormente no Ajax Cape Town.

Pois bem, pode ser que os méritos esportivos de Mtawali tivessem sido escassos para garantir-lhe um lugar no coração dos torcedores do Newell’s Old Boys, mas as lendas urbanas em torna da sua figura fizeram o seu nome ser preservado na memória de todos os rosarinos. A maior delas era a que assegurava que o presidente Eduardo López havia sido enganado por Houseman e que o jogador que lhe tinha sido prometido era na verdade o irmão de Ernest.

Talvez essa lenda tenha um fundo de verdade já que Mtawali usou outra identidade durante os primeiros anos de sua carrerira. Isso aconteceu porque em 1984 o jovem, que naquela época jogava no Hardware Stars do seu país, um dia literalmente sumiu da face da terra e logo apareceu jogando no Bloemfontein Celtic, sob o nome de Ernest Chirwali. Na época, a África do Sul viva o apartheid e qualquer jogador que fosse contratado por um clube do país seria banido do futebol pela FIFA. Utilizando outro nome, Ernest garantia que no futuro poderia seguir sua carreira em outro país sem problemas, mas a tramoia foi descoberta pela federação internacional e o jogador foi declarado culpado. Para sua sorte, a sanção foi considerada sem efeito em 1992, quando a FIFA encerrou o boicote a África do Sul.